domingo, 30 de dezembro de 2007


Meu inesquecível Papai Noel

Aquele Natal seria como outro qualquer.
Sem mesa farta, sem castanhas, sem peru e sem a arvorezinha com seus enfeites brilhantes e com luzes multicoloridas que acendiam e apagavam , encantando o menino magrinho que colava o nariz na vitrine da loja de brinquedos e ficava longo tempo imóvel com o olhar fixo como se viajasse pelo mundo dos sonhos e da imaginação.
Aquilo era algo mágico. Afinal o menino magrinho, pés no chão e cabelos escorridos tinha absoluta liberdade para inventar seus sonhos e sabia que podia ser exclusivista. Podia viajar por um mundo só seu.
Apenas seu.
Aquela noite não seria diferente das outras.
O menino magrinho não ia colocar seu sapato na janela, até porque não tinha sapato. Não haveria troca de presentes.
Talvez a única coisa que lembrava ser aquela uma noite especial era a algazarra das crianças brincando na rua com seus novos brinquedos e som da musica de natal que vinha do interior das casas anunciando o bater dos sinos em Belém:
“... bate o sino pequenino, sino de Belém. Já nasceu o Deus-Menino para o nosso bem”.
Não havia roupa nova e nem refrigerantes na mesa.
Ainda assim o menino magrinho, pés no chão e cabelos escorridos estava feliz porque sabia inventar seus sonhos.
A vida foi sempre assim. Mostrando a realidade e ensinando-lhe a sonhar
Mas o menino magrinho cresceu sem ter que esperar pelo Papai Noel. Pois, para ele todas as noites o seu Papai Noel estava ali, ao seu lado, com seus cabelos grisalhos, mãos tremulas e calejadas, corpo cansado e rosto marcado pelo sofrimento do trabalho árduo, castigado pelo sol impiedoso e implacável em seu trabalho no roçado.
Rodeado pelos filhos e pela mãe, na mesa simples, ele sentava e tinha a pose de Rei.
Aquilo enchia de orgulho o menino magrinho de cabelos escorridos. Foi com ele que aprendeu que a grande riqueza não está nos bens materias e sim naquilo que de bom o homem carrega na alma.
Na rua o barulho das crianças aumentava. Os carros buzinavam, os fogos cobriam o céu de luzes coloridas. No interior das casas as pessoas se abraçavam, trocavam presentes e brindavam o Natal.
Não havia ceia, mas o menino magrinho, seus irmãos e seus pais estavam felizes, por que haviam aprendido que a vida é assim. Naquela noite o papai juntou todos em sua volta e se abraçaram. A frase bíblica “Nos vos inquieteis pelo dia de amanhã” dita pelo pai, cabelos grisalhos, mãos calejadas e face castigada pelo sol, era a própria esperança.
Não havia tristeza e nem precisava esperar pelo Papai Noel. Afinal ele já estava ali, de pé, ao lado da cama do menino magrinho.
Com seus cabelos grisalhos, cuidou de ajeitar o cobertor e depois se curvouo e depositou um beijo na face do menino e disse baixinho:
Feliz Natal meu filho!
Com os olhos brilhando apertou a mão do pai e disse:
Feliz Natal, Papai Noel!
O menino de ontem é homem hoje
Viveu aprendendo que o Natal não é apenas mesa farta, o borbulhar de uma taça de champagnhe ou a frieza de um presente embrulhado em papel brilhante e fitas coloridas.
Aprendeu que a maior virtude está na humildade e na vontade de ajudar àqueles que lhe estende a mao. Ser capaz de ajoelhar para plantar uma semente ou para pedir perdão. Ser filho ou ser pai, mas ter orgulho e saudade do velho de cabelos brancos, de mãos calejadas e tremulas que caminhava com dificuldades.
Sentir saudade, abraçá-lo forte como nos tempos de criança. Saudade de seu cejiro e de poder beijar seu rosto e dizer agradecido:
Obrigado Pai. Um Feliz Natal meu Papai Noel.

Texto em homenagem ao meu pai Joaquim Bittencourt Dias, homem que sempre acreditou em seu país e se orgulhou de sua gente. Que lutou durante 82 anos e apesar das quedas sempre esteve de pé . Venceu as adversidades e conseguiu, apesar da pobreza, viver seu mundo com riqueza de caráter, dignidade e sabedoria.

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