sábado, 31 de dezembro de 2011

A MESMA PRAÇA...

Numa dessas noites em que a gente sai caminhando sem rumo, passei pela Praça São João. Uma velha e conhecida amiga dos meus tempos de adolescente.

Parei e sentei-me em um dos seus bancos. Bancos iguais aos que nos 60 eram disputados pelos namorados que passavam horas e horas trocando confidências e eternas juras. Estavam todos solitariamente vazios.

Rememorizei fatos. Meus olhos viajaram no tempo.
Procurei pelo antigo Cine São João aonde eu ia todas as manhãs de domingo trocar gibis e depois comprar um ingresso para as matines. Nos filmes do Mazzaropi, Cantinflas, Grande Otelo, Zé Trindade e Oscarito os ingressos eram disputadíssimos. E os bang...bangs, tipo Zorro, Billy The Kid, o pistoleiro mais rápido do velho oeste e o implacável Durango Kid que vestia-se sempre de preto e com seu rosto coberto pelo lenço da mesma cor, montado em seu cavalo branco chamado Corisco, que fazia os fora da lei tremerem. O personagem é citado nas canções Cowboy Fora-da-Lei e Anarkilópolis, de Raul Seixas.
O velho cinema não estava mais lá.

Meus olhos procuraram pelos pipoqueiros com seus pacotinhos de amendoim, queijadinhas, manjares metade vermelho metade amarelo e seus pudins. No bolso da calça a gente sempre carregava umas balas chitas para oferecer para uma garota que circulava no “footing”. Os homens caminhando no sentido horário e as meninas em sentido contrário. Era inevitável o cruzamento de olhares.
Os playboys da época, com seus topetes presos pelo gumex, botavam charme sentados em suas reluzentes lambretas estrategicamente estacionadas.
As meninas se derretiam por eles. Era uma disputa desigual.

Mas os pipoqueiros também não estavam mais lá.

Nem mesmo o velho e bom Bar Branca de Neve, onde a gente tentava conquistar uma garota lhe oferecendo um sorvete de chocolate, meus olhos não viram.

A Praça ainda está lá. Mas tão diferente.

Não tem mais o mesmo charme e a magia de antes.

Não tem mais a fonte com seus jatos de água multicoloridos encantando as crianças e que faziam a maior algazarra correndo por suas passarelas e canteiros, apesar das plaquinhas que alertavam. “É proibido pisar na grama”

Aqueles adolescentes hoje são homens e mulheres. Corri os olhos por todos os bancos da Praça na esperança de encontrar algum deles. Os meus amigos Cleverson, Chita, Angelin, Guedê, Arthur dos Yellons (im memoriam). Mas também não estavam lá.
Por onde andam?

Teriam esquecido a velha Praça? Não. Penso que não. A gente não conseguiria esquecer as boas coisas e os bons momentos vividos ali. Isso fica marcado para sempre em nossas vidas, impregnando a alma.

Me dei conta que já se passava das 23 horas e não havia nenhum outro vivente na Praça. Apenas eu e um gatinho que parou próximo ao meu banco e ficou a me olhar, talvez indignado com a minha presença.
Dei uma última olhada ao redor da Praça e constatei com alegria que um cenário familiar felizmente ainda estava lá. Intacto, como antigamente. A imponente Igreja São João, hoje denominada Paróquia Santuário São João Batista e São Judas Tadeu
Bonita e majestosa como sempre.

Pena que seu relógio já não registra mais o passar do tempo nem as harmoniosas batidas dos sinos anunciando o passar de cada 15 minutos, numa melodia que ficou marcada em minhas lembranças.

Olhei para o alto e esperei alguns minutos na esperança que eles tocassem.
Não tocaram!
Continuei minha caminhada, deixando a Praça inteiramente para o gatinho que me fez companhia.

Quem sabe um dia ate mesmo o gatinho tambem sinta saudades de mim como senti dos meus amigos.